A cidade de Berlim, na Alemanha, reuniu ativistas, advogados, jornalistas, acadêmicos e autoridades públicas da América Latina e da Europa nos dias 20 e 21 de abril de 2026 para participar da conferência “Crime Organizado Transnacional: Contra-estratégias da América Latina à Alemanha”. Durante dois dias, os participantes debateram como o narcotráfico e o crime organizado afetam países como Equador, Peru, Colômbia, Brasil, México, El Salvador e Guatemala. Esses dois problemas afetam a América Latina, mas também estão se espalhando pela Europa, especialmente para países como a Alemanha. Por isso, a Fundação Heinrich Böll, em parceria com a organização Misereor, promoveu esta conferência.
Ditaduras que ameaçam a democracia
A transnacionalização do crime organizado é agravada pela guinada desses países rumo a regimes autoritários, ditaduras ou pelo fortalecimento da extrema direita tanto nas Américas quanto na Europa, com exceções como Brasil, Colômbia e México, onde suas democracias estão ameaçadas. O caso salvadorenho, com Nayib Bukele cumprindo efetivamente mais um mandato inconstitucional como presidente, viu suas políticas linha-dura se espalharem como uma tentação para políticos de direita que, usando a violência como arma e estratégia eleitoral, buscam vencer eleições em diversos países.
Sem entrar em detalhes sobre o que realmente acontece naquele pequeno país da América Central, baseando-se apenas no que a imprensa independente e as organizações salvadorenhas de direitos humanos têm retratado, fica claro que se trata de uma ditadura sustentada por negociações com os principais chefes de gangues e pela violação de todas as garantias e direitos de seus cidadãos, a ponto de cometer crimes contra a humanidade. Durante os dois dias de diversas conferências, foram compartilhadas experiências que evidenciam os efeitos nocivos do populismo na América Latina, como se observa em casos como Equador, Peru e El Salvador. Na Colômbia e no México, o problema é agravado pelo crime organizado e pela produção e tráfico de cocaína para o restante das Américas e Europa.
Na América Latina, os Estados Unidos e o Brasil são os dois países com maior consumo de cocaína. A droga produzida e exportada do Equador chega à Alemanha através de Hamburgo, por diversos meios de transporte e sob o controle de gangues identificadas: os Rockergruppen, os Hells Angels, a máfia marroquina, a Chechana e o Clã Osmani, explica um dos especialistas em investigação criminal. Nesse contexto, a busca por estratégias comuns para combater o crime organizado internacional e a avaliação de sua eficácia — sejam elas implementadas pela sociedade civil, por agências de cooperação internacional ou por autoridades públicas — estiveram entre os temas debatidos neste fórum.
Primeiro Dia
Nas últimas décadas, o crime organizado transnacional (COT) consolidou-se na América Latina como uma das principais ameaças sociais, políticas, econômicas e de segurança para as sociedades. A tal ponto, vem ganhando crescente influência nos governos locais, regionais e nacionais. Essa realidade também afeta os países europeus. Como se estruturam as cadeias de suprimentos ou rotas da América Latina para a Alemanha e quais dinâmicas sociais as impulsionam?
Esta análise contribui para a identificação de contramedidas à grave saturação do mercado de cocaína na Alemanha. Ela se concentra nas interfaces entre o Estado e as estruturas criminosas, com base em exemplos da Colômbia, do Brasil e da Alemanha, bem como no papel das alfândegas e dos portos — um tema central abordado pelo Vice-Presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Destaca-se a importância da recente visita in loco à Colômbia, em abril de 2024, para a elaboração de um relatório sobre o impacto da violência na situação dos direitos humanos, e, em segundo lugar, de uma visita de trabalho limitada, em dezembro, a uma favela do Rio de Janeiro, devido às execuções extrajudiciais cometidas pela polícia que resultaram na morte de mais de 130 jovens após intervenção policial.
Painel 2: De Buenaventura a Berlim, cocaína e corrupção entre a América Latina e a Alemanha
Em seguida, houve um segundo painel de discussão sobre iniciativas contra a violência endêmica, utilizando exemplos da Colômbia, do Brasil e da Alemanha. O papel das alfândegas também será analisado com maior profundidade. Participaram do debate a jornalista Diana Salinas, da Cuestión Pública, Colômbia; Víctor Vidal, ex-prefeito de Buenaventura e representante do Processo das Comunidades Negras (PCN), na Colômbia; Carolina Grillo, do Grupo de Estudos sobre Novas Formas de Ilegalidade da Universidade Fluminense, Brasil; Benedikt Strunz, da NDR, Alemanha; e Arne Schwoch, do Centro de Segurança Portuária da Delegacia Regional de Investigação Criminal de Hamburgo. Um dos casos importantes discutidos foi a organização de diversos grupos criminosos no Brasil, que se expandiram de um foco local para uma presença nacional. Relatórios e diversas publicações no Brasil mostram que as milícias do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC), entre outras, encontraram seus principais centros de operação em presídios e, ao serem transferidas para diferentes unidades prisionais no país, encontraram maneiras de se estabelecer em outros territórios.
Foi revelado publicamente que o ex-presidente Bolsonaro tem ligações com uma dessas gangues criminosas, como as Milícias do Rio de Janeiro, segundo um relatório da Open Democracy. Na Colômbia, a distribuição de conhecimento sobre criminalização e cadeias de valor do crime organizado é fundamentalmente desigual. Isso é resultado da política antidrogas "Plano Colômbia", baseada na cooperação com os Estados Unidos e em vigor há três décadas. "Tudo isso influencia a forma como as políticas públicas são desenvolvidas na Colômbia e como essas atividades, que reforçam estigmas e processos de exclusão social, são percebidas", comenta um especialista no assunto.
Após o vazamento de 7 milhões de e-mails da Procuradoria-Geral da Colômbia, foi possível determinar como as informações sobre o narcotráfico são apresentadas e como circulam dentro das entidades responsáveis pela investigação e fiscalização, como as agências de arrecadação de impostos e alfândega, e aquelas responsáveis pelo combate ao crime organizado. Ficou praticamente evidente que essas agências não processam o narcotráfico ou o crime organizado; pelo contrário, são utilizadas principalmente para acobertar, vazar ou manipular informações por parte de funcionários diretamente ligados a redes de narcotráfico ou crime organizado. Em suma, isso demonstra a cooptação dessas instituições.
Segundo dia
Painel Dois: Crime Organizado Transnacional (COT), Autoritarismo e a Agenda Antidireitos
O primeiro painel, realizado em 21 de abril, explorou a estreita relação entre o crime organizado e as violações dos direitos humanos na América Latina. Essas violações são exacerbadas por regimes autoritários e pela restrição das garantias constitucionais dos cidadãos. Essa estratégia se repete em toda a região, com Estados cada vez mais repressivos utilizando a força como instrumento de violência, militarizando as sociedades e cogovernando com o crime organizado. Os palestrantes discutiram essa relação a partir das experiências de El Salvador, Equador, Brasil e Alemanha: Andrea Dip, Pesquisa Contra o Autoritarismo Global (ReGa), Brasil; Carolina Grillo, Grupo de Estudos sobre Novas Formas de Ilegalidade, Universidade Fluminense, Brasil; Víctor Peña, El Faro, El Salvador; Ingrid García, INREDH, Equador; e Axel Hemmerling, MDR, Alemanha.
Painel 3: Instrumentos de cooperação internacional
A América Latina está sujeita às mudanças constantemente promovidas pelos Estados Unidos, que, durante o governo de Donald Trump, trouxeram maior incerteza à região devido aos níveis de desrespeito e enfraquecimento das democracias e dos sistemas de justiça, incluindo as Nações Unidas e o sistema interamericano de direitos humanos. Este painel levanta as seguintes questões: Em que condições a sociedade civil e os observatórios acadêmicos, além de documentar violações de direitos humanos, podem fornecer informações valiosas sobre redes criminosas? E como suas recomendações podem ter impacto político? Ao mesmo tempo, analisaremos a atual arquitetura da cooperação internacional: Quais mecanismos estão funcionando? Onde estão as lacunas e em que áreas a Alemanha deve concentrar seus esforços no futuro?
Ingrid García, do INREDH, Equador; Marcel Emmerich, membro do Bundestag pela Aliança 90/Os Verdes, Alemanha; Carlos Pérez Ricart, do Centro de Pesquisa e Ensino Econômico (CIDE), México; Florian Lewerenz, da Divisão da América do Sul do Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento, Alemanha; e Andrea Richards, do Departamento 332 do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, buscaram algumas respostas com base nas experiências de seus respectivos países.
Eles propõem quatro pontos que a cooperação, especialmente a alemã, deve considerar neste contexto:
- Deve se abster de definir a agenda de seus parceiros.
- Deve desempenhar um papel central na segurança da América Latina.
- Deve trabalhar com mais pessoas dentro dos Estados.
- Deve ir além da documentação de abusos e mapear os sistemas de poder e crime.
Painel 4: Lucro à custa da natureza: crime organizado e crimes ambientais
A mineração na Amazônia exemplifica perfeitamente como os crimes ambientais caminham lado a lado com as estruturas criminosas e como essa região devastada se tornou um polo do crime transnacional. Ouro e drogas são duas das muitas atividades extrativistas que controlam essa região. Este foi o tema de discussão do painel: Marcos Alan Ferreira, Universidade Federal da Paraíba, Brasil; Paul Maquet, CooperAcción, Peru; Álvaro Pardo, ex-Ministro da Superintendência de Minas, Colômbia; e Lukas Benner, Deputado Federal pelo partido Aliança 90/Os Verdes, Alemanha.
Painel 5: Rastreando o Dinheiro: Combatendo Eficazmente os Crimes Financeiros
Um dos maiores problemas no combate eficaz aos crimes financeiros está relacionado ao papel dos Estados Unidos, um país que não atende aos padrões de combate à lavagem de dinheiro. A discussão menciona a falta de transparência nos EUA, especialmente devido à criação de inúmeros centros offshore que apenas incentivam investimentos que são posteriormente ocultados. Isso é particularmente prevalente durante o governo Trump, que permitiu a ocultação de capital. Os sistemas de lavagem de dinheiro são tão eficazes quanto os sistemas de crime organizado, tornando-se uma questão de segurança nacional para todos os países, à medida que a democracia e o direito internacional se deterioram cada vez mais. Chega-se a afirmar que a Europa está se tornando um dos principais centros mundiais de lavagem de dinheiro.
Da Itália, foi compartilhada a experiência de sua organização na transferência de bens apreendidos de criminosos para trabalhar com organizações da sociedade civil — uma forma de reparação, visto que argumentam que todos na sociedade são vítimas diretas ou indiretas do crime organizado. Como uma avaliação conjunta da luta contra a lavagem de dinheiro pode impulsionar novos esforços? Quais são o potencial e as limitações de instrumentos como o confisco de bens em ambos os continentes? Qual a importância da reutilização social de bens confiscados para o fortalecimento da sociedade civil? Essas são algumas das questões que os convidados buscaram responder. O painel contou com a participação de Emiliano Cottini, da Libera – Associações, Nomes e Figuras Contra a Máfia e da Rede Alternativa Social Latino-Americana (Red Alas), da Itália; Michael Findeisen, da mafianeindanke e ex-chefe de departamento do Ministério Federal das Finanças, da Alemanha; Cecilia Farfán-Méndez, do Observatório Norte-Americano da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (a confirmar); e Sven Giegold, membro do Parlamento Federal (MdB) pelo Partido Verde/Aliança 90, da Alemanha.